Em parceria com a Cinemateca Portuguesa

Retrospectiva Jacqueline Audry

Realizadora francesa, Jacqueline Audry (1908-1977), a única mulher a manter produção regular em França entre 1943 e 1969, esteve desaparecida da história do cinema durante largas décadas, não obstante a popularidade de alguns dos seus filmes. Talvez por ter ficado entalada entre o cinema francês do pós-guerra e o movimento Nouvelle Vague, ou pelo estilo Belle Époque de algumas das suas adaptações literárias. Marcada pela liberdade de abordagem, pela emancipação feminina, o papel das mulheres e a sexualidade, é uma obra surpreendente e ousada, que compreende o filme histórico, a comédia dramática, a comédia policial ou o filme político. Sobre os seus filmes, Jacqueline Audry afirmou retrospetivamente que “tiveram por objeto as relações passionais entre os seres”. Sobre o percurso firmado num mundo eminentemente masculino, sintetizou: “Toda a minha vida profissional foi uma espécie de torneio. Tive de guerrear muito.

Entre os dias 8 e 20 de outubro, a 22ª Festa do Cinema Francês e a Cinemateca Portuguesa apresentam uma retrospectiva sobre um dos nomes que importa redescobrir na história do cinema do país. Presente em Lisboa, para fazer a apresentação de todo o programa, estará Brigitte Rollet, investigadora e professora em estudos de cinema e media e autora de Jacqueline Audry : la femme à la caméra.

Para saber mais

HUIS-CLOS

1954 I 95' I Drama I França | M/12 | LEG. PT
Realização Jacqueline Audry

Com Arletty, Gaby Sylvia, Franck Villard, Nicole Courcel, Yves Deniaud, Danièle Delorme, Jean Debucourt

A partir da obra original de Sartre (com quem Colette Audry trabalha na revista Temps modernes), esclarece o plano inicial: “É o inferno segundo Jean-Paul Sartre. Nem chamas... nem instrumentos de tortura. Nem suplícios físicos... e os carrascos são aqueles cuja presença nos é infligida. O inferno são os outros!” Rodado em Paris e na Côte-d’Azur, é o filme em que três seres entre si desconhecidos, Inès (Arletti), Garcin (Franck Villard) e Estelle (Gaby Silvia), são fechados no mesmo compartimento que será murado, compreendendo a maldição individual na companhia inelutável dos restantes e das memórias de cada um. Estas, terrenas, surgem visuais e sonoras no ecrã que se abre entre as cortinas da janela da sala de estar, como um ecrã de cinema. A ideia da projecção cinematográfica é verbalizada pelo “mordomo” que, sendo preciso, surge na sala de estar dos três seres até que a câmara suba num último movimento que fixa o infernal cenário entre os vapores do lugar dos condenados a penas eternas. A apresentar em cópia digital.

 

[Texto cedido pela Cinemateca Portuguesa]

Quarta-feira [13] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro
Sexta-feira [15] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

L'ÉCOLE DES COCOTTES 

1957 I 100' I Comédia I França | M/12 | LEG. PT
Realização Jacqueline Audry

Com Dany Robin, Fernand Gravey, Bernard Blier, Odette Laure, Darry Cowl, Jean-Claude Brialy


A partir da peça de vaudeville de Paul Armont e Marcel Gerbidon (argumento de Pierre Laroche), nova incursão de Jacqueline Audry na Belle Époque e em retratos de mulheres emancipadas (como nas adaptações de Colette, GIGI, MINNE e MITSOU). Ginette vive modestamente com o jovem pianista interpretado por Jean-Claude Brialy, sendo seduzida para uma vida cortesã por um aristocrata tornado professor “de boas maneiras”. Tudo se passa numa frívola Paris, em tom de comédia ligeira e desfecho melancólico. É dos primeiros trabalhos de Brialy, no mesmo ano em que filma com Pierre Kast, Louis Malle e Claude Chabrol. A protagonista é interpretada por Dany Robin, que se torna conhecida em papeis de “jovem ingénua” no cinema francês do pós-guerra, variando posteriormente de registo nos muitos filmes em que participou, colaborando, além de Audry (também em C’EST LA FAUTE D’ADAM e, num papel de menor relevo, LE SECRET DU CHEVALIER D’EON), com Marcel Carné, René Clair, Gilles Grangier, Julien Duvivier, Henri Decoin, Sacha Guitry ou Anatole Litvak, até terminar sob a direção de Hitchcock em TOPAZ (1968).

[Texto cedido pela Cinemateca Portuguesa]

Quinta-feira [14] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

Segunda-feira [18] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

LA GARÇONNE

1957 I 97' I Drama | França | M/12 | LEG. PT

Realização Jacqueline Audry

Com Andrée Debar, Fernand Gravey, Jean Danet, Colette Mars, Jacques Castelot

Quando estreou foi um escândalo e um grande sucesso público. A história de Monique (Andrée Debar, também protagonista do filme seguinte de Audry, LE SECRET DU CHEVALIER D’EON) é a de uma mulher que, descobrindo a infidelidade do noivo, decide viver autonomamente a sua vida financeira e pessoal, nela incluídas as relações amorosas e sexuais. “Considero o romance de Victor Margueritte como a primeira etapa da emancipação da mulher”, disse na altura Audry referindo-se ao escritor da obra de 1922 que o argumento adapta e que então valeu a Margueritte acusações de atentado à honra e à ordem e a retirada da distinção da Legião de Honra francesa.

[Texto cedido pela Cinemateca Portuguesa]

Sábado [16] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

Segunda-feira [18] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro

LES CHEVAUX DU VERCORS

1943 I 18' I Documentário I França | M/12 | LEG. PT
Realização Jacqueline Audry


LES CHEVAUX DU VERCORS é a estreia de Jacqueline Audry na realização e única das suas incursões documentais, no fim dos estudos no Centre artistique et technique des jeunes du cinéma, em Nice, onde terá sido a primeira mulher a estudar realização. A curta-metragem fixa-se nos cavalos do maciço do Vercors, na Camarga francesa, na transumância, na vastidão das pradarias. Audry volta à paisagem provençal da Camarga em LA CARAQUE BLONDE (1953), “um drama rural, história de rivalidade entre os pastores e os cultivadores de arroz” com “planos únicos no cinema francês de aventuras” (Bertrand Tavernier), por vezes referido como um western francês. Como primeira longa-metragem, assina em LES MALHEURS DE SOPHIE uma comédia dramática a partir do romance da Condessa de Ségur (1858), numa adaptação livre (da sua irmã Colette Audry) que descarta a perspetiva infantil, retrata a jovem Sophie como uma adulta independente na segunda parte do filme e privilegia um tom feminista. De produção atribulada, dificultada pelos entraves da censura de Vichy ao argumento sobre cujos infortúnios Pierre Laroche publicou um texto elucidativo (Les malheurs d’un scénario), o filme é rodado na primavera de 1945 e estreia no ano seguinte. Pode ser considerado um filme-matriz, “o embrião do que se tornará a marca da realizadora, uma maneira de contornar as regras, frustrar as expectativas e desconsiderar as convenções” (Brigitte Rollet).

[Texto cedido pela Cinemateca Portuguesa]

Sábado [9] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

Segunda-feira [11] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

LES MALHEURS DE SOPHIE

1945 | 95' | Comédia, Drama I França | M/12 | LEG. PT

Realização Jacqueline Audry

Com Madeleine Rousset, Marguerite Moreno, Michel Auclair, André Alerme, Colette Darfeuil

É a primeira longa-metragem, uma comédia dramática a partir do romance da Condessa de Ségur (1858), numa adaptação livre (da sua irmã Colette Audry) que descarta a perspetiva infantil, retrata a jovem Sophie como uma adulta independente na segunda parte do filme e privilegia um tom feminista. De produção atribulada, dificultada pelos entraves da censura de Vichy ao argumento sobre cujos infortúnios Pierre Laroche publicou um texto elucidativo (Les malheurs d’un scénario), o filme é rodado na primavera de 1945 e estreia no ano seguinte. Pode ser considerado um filme-matriz, “o embrião do que se tornará a marca da realizadora, uma maneira de contornar as regras, frustrar as expectativas e desconsiderar as convenções” (Brigitte Rollet).

[Texto cedido pela Cinemateca Portuguesa]

Sábado [9] 19:00 | Sala M. Félix Ribeiro

Segunda-feira [11] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

MINNE, L'INGÉNUE LIBERTINE

1950 I 90' I Comédia psicológica I França | M/12 | LEG. PT

Realização Jacqueline Audry

Com Danièle Delorme, Franck Villard, Jean Tissier, Armontel, Simone Paris, Yolande Laffon

A história desta “libertina ingénua” é filmada com uma surpreendente desenvoltura na abordagem do desejo e da sexualidade feminina, um motivo já de si extraordinário no romance homónimo de 1909, de Sidonie-Gabrielle Colette. Bertrand Tavernier nota como Audry causa arrepios na época, com o máximo da elegância e o mínimo do recato, recorrendo a uma “espécie de montra açucarada”, isto é, “dissimulando-se por detrás dos encantos da Belle Époque, por detrás de cenários bastante elegantes, de um guarda-roupa muito sofisticado”.

[Texto cedido pela Cinemateca Portuguesa]

Sábado [9] 21:30 | Sala M. Félix Ribeiro
Terça-feira [12] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro

OLIVIA

1950 I 95' I Drama I França | M/12 | Leg. PT

Realização Jacqueline Audry

Com Edwige Feuillère, Yvonne de Bray, Simone Simon, Suzanne Dehelly, Marie-Claire Olivia

Filme-chave na obra de Jacqueline, escrito com a irmã Colette Audry e dialogado por Pierre Laroche a partir de um romance de Dorothy Bussy, é um retrato do despertar da sexualidade juvenil de extrema sensibilidade, que aborda o desejo lésbico dispensando juízos e preconceitos. Mais referida pelo desassombro narrativo, a quinta ficção da realizadora é reveladora da peculiaridade da sua visão, mise-en-scène ou direção de atores (no caso, exclusivamente atrizes). A história é a de Olivia (interpretada por Marie-Claire Olivia): uma adolescente inglesa ingressa numa escola francesa de raparigas no século XIX e apaixona-se por uma de duas mestras (as personagens de Edwige Feuillère e Simone Simon), amantes ou ex-amantes que entre si disputam a atenção das alunas. Especialmente polémico na época, em que fez escândalo e despertou violência crítica, tornou-se a mais conhecida obra da realizadora. “Um filme raro em todos os sentidos – belo, precioso, secreto” (Camille Nevers, Libération). A apresentar em cópia digital.

[Texto cedido pela Cinemateca Portuguesa]

Sexta-feira [8] 21:00 | Sala M. Félix Ribeiro
Quarta-feira [20] 15:30 | Sala M. Félix Ribeiro